Imã da Mesquita Central de Lisboa considera o conhecimento a arma decisiva para combater o fanatismo religioso. Entrevista por João Morgado Fernandes.

O fanatismo religioso pode ser vencido?

O fanatismo, religioso ou não religioso, pode ser vencido. Não é uma tarefa fácil, não é trabalho para uma ou duas semanas, é provavelmente para vários anos. Algumas características do ser humano, como o medo, só podem ser modeladas com o tempo.
A globalização tem vantagens e desvantagens, mas se os seus mecanismos forem usados da forma certa, com inteligência, podem ser um instrumento para transmitir a palavra adequada.
O melhor combate que podemos fazer ao fanatismo é através do conhecimento. Como fomentar o fanatismo? É não dando conhecimento suficiente. Sem conhecimento, é fácil controlar a mente dos outros.
Somos também defensores da prudência, na análise e na actuação, ao contrário de algum imediatismo reinante. Antes de agir, gostamos de saber quem disse o quê, em que contexto.

Quais as origens do fanatismo?

O fanatismo está nas mentes das pessoas perturbadas. Temos fanatismo, temos radicalismo, nos adeptos do futebol, por exemplo. Claro que nos entristece muito que o fanatismo seja exercido em nome de uma religião que professa a paz, a sã convivência. Alguns seguidores das religiões fazem estragos, mas esses estragos acabam por se enraizar mais devido aos factores da espiritualidade.
O Islão significa a paz, significa submissão voluntária a Deus. Há uma enorme contradição entre uma religião, que é pacífica no seu nome e origem, e a prática de alguns dos seus seguidores. É como algumas pessoas que dizem seguir os preceitos da democracia, mas que na prática do dia-a-dia se comportam como ditadores.
O que mais nos entristece, aos muçulmanos, é quando algo de errado é feito em nome da religião. Por isso, considero que é dever de todos os muçulmanos europeus tentar desmistificar o Islão, ser clarificador, mas também ser firme quanto a essas pessoas que utilizam o Islão para matar inocentes e cometer actos que a própria religião condena.
Por outro lado, o Islão não deve ser encarado pelos europeus como algo de novo. O Islão é uma das religiões do Ocidente, como o são o cristianismo ou o judaísmo.

O fanatismo religioso resulta mais de uma interpretação radical dos princípios religiosos, ou de factores sócio-económicos e políticos?

O Islão não tem qualquer radicalismo ou agressividade na sua génese. O Islão é paz. É claro que se trata de um sistema, de um código de vida, que incorpora política, sistema judicial, os direitos, os deveres. O fanatismo não está nas religiões, está nas pessoas. Um fanático pretende, no fundo, que o outro seja como ele é.
Os seguidores do Islão querem seguir as práticas do Profeta. Mas há algumas práticas do Profeta que eram pessoais e que têm um sentido histórico, e há outras práticas que fez, mas também disse para outros fazerem. Há pessoas que não fazem apenas o que o Profeta disse para ser feito, mas gostam de seguir, à letra, o que o Profeta fez. Por exemplo, os meios de transporte do Profeta eram o camelo e o cavalo, isso não quer dizer que hoje tenha de ser assim. Há quem queira, ainda hoje, sentar no chão e comer, como o Profeta fazia, ou vestir como o Profeta vestia, sendo que alguns desses aspectos são mais da ordem da cultura e da tradição do que da religião.

O facto de em alguns países muçulmanos haver confusão entre política e religião, de serem estados confessionais, não contribui para a radicalização, através da utilização da religião para fins políticos?

O Islão não nasceu hoje, temos uma história de 1436 anos. Quase todos os países árabes passaram por tempestades, alguns foram colonizados, durante séculos.
O Profeta não nomeou sucessor, seguiu-se-lhe Abu Bakr, depois outros califas nomeados e finalmente a monarquia. Para os muçulmanos, essa foi uma sociedade modelo, da justiça, da igualdade, da transparência... Seguiram-se as ocupações do Ocidente, que deixaram constituições políticas, as quais tiveram que conviver com a nossa verdadeira constituição, que é o Alcorão. E aconteceu que cada uma das partes – a religiosa e a secular – começaram a conhecer cada vez menos a outra.
O conceito do Islão abarca a ideia de uma só nação – o cidadão islâmico que esteja em Marrocos pode viajar até à Indonésia, sem nenhum passaporte.

Esse não é um conceito político?

Sim, é. O Alcorão é um oceano... no Islão não há fronteiras.
Como se os países islâmicos tivessem um espaço Schengen, de livre circulação...
Mas esse seria um espaço de livre circulação religioso e nãopolítico... Não, não, seria ambas as coisas. O que temos hoje é um mundo islâmico muito dividido, cheio de fronteiras.

Insisto, não é essa confusão entre política e religião que está na origem, por exemplo, da tensão entre o mundo islâmico e a Europa?

Nada disso. O Islão aceita o cristianismo, dá liberdade a cada um de ter a sua religião. O Islão dialoga com os outros povos, quer conviver e aprender com os outros povos, as outras culturas.
Algumas pessoas, por falta de conhecimento concreto do Islão, acabam por cometer actos contra os cristãos que são eles próprios actos conta os princípios do Islão.

E os radicais?

Os radicais não aceitam as ideias dos outros, sejam elas políticas ou religiosas. Os radicais nada têm a ver a religião, os radicais são pessoas perturbadas. Há pessoas que utilizam a religião e a política para se imporem perante o outro.
Hoje, a meu ver, o mundo islâmico está muito fragmentado, muito frágil. Temos que estudar quais são as melhores maneiras de resolver os principais problemas desses países, sociais e económicos. Os problemas religiosos podem resolver-se mais tarde.

Os fanatismos que têm emergido nos países islâmicos têm motivações económicas?

Alguns religiosos e políticos usam as pessoas mais fragilizadas, mais sensíveis, e, através de algumas promessas que fazem, acabam por conseguir adeptos nessas comunidades. De onde vêm os náufragos do Mediterrâneo? Das zonas mais pobres do mundo islâmico...

A chamada Primavera Árabe veio resolver alguma coisa?

Grande fracasso. Grande fracasso... Destruiu países, assustou povos, gerou-se mais medo, criou-se mais radicais... E, sinceramente, não vislumbro melhorias a curto prazo. Qualquer radical, fanático, aproveita bem esses climas de instabilidade. Os fabricantes de armas agradecem...

O diálogo inter-religioso pode ajudar a combater o fanatismo?

Esse diálogo, politicamente, é positivo. Mas é necessário ir para além disso. Esse diálogo não pode limitar-se aos responsáveis, aos dirigentes, têm que envolver as diversas comunidades. Se as comunidades, as pessoas, convivessem entre elas, com respeito, com generosidade, muitas barreiras seriam quebradas.

Mas os dirigentes já dão o exemplo...

Tem que se fazer mais. As reuniões dos dirigentes são simbólicas, políticas. É como nas tragédias: fazemos um minuto de silêncio, ou de atenção, e depois fica tudo na mesma. É preciso trabalhar em conjunto para evitar novas situações dessas.

Esse não é um tema presente na vida das comunidades religiosas?

Há uma certa reflexão, mas a sociedade deveria organizar mais encontros entre membros das várias culturas e religiões. Um dia aberto, em que judeus, cristãos e muçulmanos pudessem desenvolver várias actividades. Esses encontros entre pessoas que não se conhecem seriam bem mais importantes do que reuniões entre os vários responsáveis.