segunda-feira, 28 de setembro de 2009

A tradição Nagpa no Budismo Tibetano

A tradição Nagpa no Budismo Tibetano

As maiorias das pessoas que têm alguma familiaridade com o Budismo Tibetano ou alguma leitura básica do mesmo, pensam que o caminho dominante da prática budista é guiado pelos Lamas e Monges chamados Rabjuns, facilmente reconhecíveis por sua cabeça raspada e roupas vermelho escuro. Muitas pessoas no ocidente que já receberam ensinamentos budistas, o fizeram com estes tipos de Lamas celibatários. Inclusive nos numerosos documentários e filmes sobre o Tibete, Himalaia, budismo, etc. a maioria de Monges e Lamas que aparecem pertencem a esta tradição.
É bom dizer que este não é o único caminho da prática espiritual do budismo tibetano, nem tampouco o primeiro, que se remonta a outro caminho: a tradição Ngak´phang, herdeira do Tantra budista desde os tempos do próprio Buda Shakyamuni.
Os primeiros praticantes ordenados do budismo tibetano foram os Ngagpas, também conhecidos como a Sangha Branca ou tradição Ngak´phang.
Hoje em dia é minoria em comparação numérica com os Rabjuns, sobretudo com a invasão chinesa no Tibete no ano de 1959, a tradição perigou devido ao êxodo.
Historicamente, as Sanghas ou comunidades Brancas (ngagpas) e as Sanghas ou comunidades vermelhas (trakpas), conviveram nas mesmas tradições e linhagens como a Nyingma, Sakya, Kagyu e inclusive, mesmo que raramente, também havia alguns ngagpas na tradição Gueluk.
O termo "ngak" é o equivalente tibetano de "mantra" – palavra sânscrita que pode ser interpretada de muitas maneiras de acordo a tradição, mesmo que talvez a denominação geral se refira a: "aquilo que protege a mente". Também o termo ngak pode se referir a "feitiço", "palavra" ou "palavra de poder" dependendo do contexto. Quando se remete a feitiço se refere ao feito de conseguir alguma coisa original ou extraordinária vinculado à consciência. A consciência neste sentido deve ser entendida como "rigpa": o estado não dual da presença instantânea. Deste modo consciência-feitiço, se aproxima do significado de mantra: o que protege a mente.
O termo "phang" significa ter poder e autoridade para usar alguma coisa. Significa ter a habilidade e a experiência para realizar alguma coisa, e aqui, a ferramenta, o método para a realização é ngak.
Derivadas do termo Ngakphang, encontramos as palavras ngagpa e ngagmo. Pa e Mo são terminações indicativas de homem e mulher respectivamente. "Ngagpa" é um praticante Ngak´phang homem e "Ngagmo" é um praticante Ngak´phang mulher.
Os Reis do Dharma no Tibete ensinaram duas formas de seguir o caminho de Buda. Uma delas, que foi utilizada pela maioria dos Lamas fundadores das escolas antigas, foi o caminho Ngagpa.
Foi Guru Rinpoche quem difundiu os ensinamentos Vajrayana no Tibete. Nesta época todos os praticantes eram ngagpas como o próprio Guru Rinpoche. Os Monges e Lamas seguidores desta via podiam e podem se casar e construir famílias vivendo em suas casas e formando mosteiros.
Mais tarde, foi o mestre hindu Atisha quem deu os votos (votos de Guélong) aos Monges Rabjuns vestidos de vermelho escuro e conhecidos como a "sangha vermelha". Estes raspam a cabeça como sinal de um de seus mais importantes votos, o do celibato.
Ao contrário, os ngagpas se reconhecem por deixar crescer seus cabelos e usar a cor branca em alguma parte de suas vestimentas, como na época dos grandes Mahasidas na Índia. Por isso são conhecidos como a "Sangha Branca".
Os yoguis estão mais perto da prática do mais profundo ensinamento do Buda, o Vajrayana.
Desde o tempo do Rei Trisong Detsen (740-798), as sanghas vermelha e branca da tradição Nyingma (a primeira tradição ou escola do budismo tibetano) se sentam dos lados direito e esquerdo da assembléia de praticantes.
No tempo do Rei Ralpachen, ele soltou sua longa trança de cabelo deixando-o solto de modo que ambas as sanghas pudessem se sentar no seu cabelo. A sangha vermelha se sentou do lado direito, e a sangha branca se sentou do lado esquerdo. Isto simbolizava a consideração de ambas sanghas com igual mérito.
Infelizmente, seu irmão (Langdarma) o assassinou e potencializou a tradição ancestral Bön, começando um longo período de perseguição ao budismo. Destruíram mosteiros e forçaram os monges a abraçar a religião Bön.
Sua intenção também era destruir a sangha nagkphang e o seu prestigioso e principal praticante Vairochana. Mas, quando se enfrentaram, Vairochana com seu poder tântrico se transformou em um escorpião do tamanho de um yak sobre a cabeça de Langdarma. O Rei, aterrorizado decidiu não submeter os Ngakphang e se contentou em subjugar unicamente a sangha vermelha.
Durante este período obscuro de perseguições os Lamas Ngakphang mantiveram viva a linhagem Nyingma, razão pela qual esta tradição ainda é mantida com altíssima estima.
Se não fosse por eles a linhagem Nyingma teria desaparecido e com ela, o budismo tibetano.
Hoje em dia a tradição esta estabelecida no ocidente fruto de numerosos mestres ngagpas da tradição Nyingma, Kagyu e Sakya, estabelecidos no exílio.
A tradição permite uma prática em família, em consonância com a idiossincrasia ocidental. Um compromisso do caminho budista sem ter que ser celibatário, se relacionando com a família, os amigos, e a sociedade em geral, mas olhando tudo com a mesma base de liberação e convertendo todos os momentos na terra realizável para a prática.
A tradição Ngakphang traz o entendimento para o ocidente de que o budismo não é primariamente monástico ou estritamente ordenado desde o conjunto de votos da sangha vermelha, os votos de quélong. E ainda mais, os Lamas Ngakphang desde a preservação de suas linhagens tântricas, costumam ter conhecimentos muito mais profundos do caminho tântrico que é a base fundamental do budismo Vajrayana.
Além de Vairochana, muitos outros grandes ngagpas se destacaram por sua sabedoria e erudição, como Khyechung Lotsa o qual se destacou como um dos mais prestigiosos mestres ngagpas da antiguidade. Lembram-se suas proezas e capacidade tântricas, como dar ensinamentos para pássaros. Outro célebre ngagpa da antiguidade foi Yeshe Shonu, que se destacou como um dos líderes ngagpas posteriores a perseguição do Rei Langdarma. Também se destaca o ngagpa Pelgyi Wangchuk que fundiu sua purba no fundo de uma rocha para demonstrar seu profundo grau de realização.
Os ngagpas podem praticar de forma diferente, nas cidades ou em mosteiros onde a pratica pode ser em comum ou bem feita de forma solitária em retiro.
Na India havia grandes mosteiros como o de Nalanda, onde a tradição ngagpa estava muito enraizada: por exemplo, os oitenta e quatro Mahasidas eram a sua maioria ngagpas. Na época que Virupa era abade de Nalanda, durante o dia recitava Sutras (ensinamentos) e pela noite praticava tantras. Tempos depois, certos monges o criticaram por isso, assim que decidiu devolver os hábitos e vestir cor branca, tal como faziam todos os Mahasidas da India que não foram monges. Essa é a origem do Shandab branco da saia dos Ngagpas. Outro signo de identidade são seus mantos ngagpas com listras brancas e vermelhas.
Sobre deixar o cabelo comprido, a causa se acha no fato de que quando se pratica um retiro não se pode cortar o cabelo nem o lama nem os monges, porque o cabelo comprido é símbolo da vida em família. Diferentes penteados yóguicos caracterizavam os ngagpas, como o Thor Gtsug, cabelo penteado com um turbante na parte mais alta da cabeça. O Thor Khyil, cabelo retorcido, coberto, ou enrolado no topo da cabeça. O Zur phud, cabelo em nós separados em blocos no topo da cabeça. O Tra-dril, cabelo trançado. O Traching, cabelo solto. E muitas mais variantes. Também era uma tradição fazer tranças no cabelo da barba dos homens assim como levar pingentes de conchas em devoção a Heruka. No Tibete todas as pessoas casadas usam o cabelo comprido e apenas os tragpas o usam curto, ainda que atualmente, muitos ngagpas cortam o cabelo por motivos práticos.
Os ngagpas nômades, ou errantes eram reconhecidos pelo colete de suas roupas, feito de pele de ovelha e seu takdröl ou "pega-cabelo" feito em ouro. Outros muitos ngagpas errantes eram chamados de Chödpas pela singularidade de sua prática de Chöd (Gçod). Estes ascéticos praticantes, andarilhos dos caminhos do Himalaia, anunciavam sua entrada nos povoados cantando hinos tântricos e acompanhados sempre por seu Khatvangha, tridente místico ou tântrico de Padmashambava que indica o poder da prática Vajrayana. Também levavam visivelmente seu Gomthag de Naljorpa ou cinto meditativo de yogui tântrico. Geralmente iam para ajudar as pessoas com seus poderes curadores e rituais fúnebres que consistem em desmembrar o cadáver para entregá-lo aos abutres encarregados de levá-los para o céu. Nestes rituais, os ngagpas chödpas usavam em ocasiões crânios e fêmures com os quais elaboravam suas kapalas (recipientes de oferenda) e suas trombetas de ossos, fundamentais para seus rituais (ngak-ru). Estas praticas, podem parecer mórbidas ou desagradáveis para a visão ocidental, mas são um exemplo vivo da aproximação da morte, para possuí-la e vive-la profundamente com conhecimento. De fato, os Chödpas rondavam os cemitérios e outros lugares para propiciar a entrega de sua essência física a partir da prática de Chöd. Esta pratica elaborada consiste em toda uma serie de pré-requisitos e desenvolvimentos a traves dos quais, a atividade principal consiste na visualização da divindade. Na frente dela, o meditante se visualiza a si mesmo e o seu crânio concretamente como um caldeirão de seus próprios elementos orgânicos esquartejados. Assim, oferece um banquete em várias formas e em diferentes horas do dia e da noite aos maras e seres malignos, depois de convocar-los reiteradamente a través dos toques de sua trombeta feita com fêmur humano (ngak-ru). O objetivo é reduzir o mérito da atividade, suas dividas kármicas e as dos demais com a finalidade de eliminar obstáculos e propiciar a saúde e bem estar para todos os seres secientes, assim como destruir em forma de banquete a própria identidade dualística. Um Chödpa, não pode recusar jamais o pedido para realizar a prática seja aonde for que a pediram.
Destacaram na antiguidade grandes universidade ngagpas como o Repkong Ngakpa Dratsang e a Chang Gö-kar em Amdo, que foi presidida pelo grante Gompo Tsédan Rinpoche.
Hoje em dia, as comunidades ngagpas no exílio tem tentado se reorganizar e recuperar suas práticas tradicionais seguindo o exemplo de grandes mestres ngagpas como usa santidade Sakya Trizin.
A vida espiritual de um praticante ngagpa por sua idiossincrasia social e familiar tem estado tradicionalmente voltada ao compromisso e vínculo com seu entorno más próximo. Preservando a doutrina, transmitindo-a no contexto familiar e cuidando de muitos valores ancestrais culturais e populares, como as artes, as ciências, o folclore, a literatura, etc...