sexta-feira, 2 de abril de 2010

ALIMENTAÇÃO NATURAL

A alimentação natural é a alimentação que está de acordo com a natureza do ser humano.
É de salientar que o estudo da comparação da anatomia e fisiologia entre carnívoros, herbívoros e seres humanos nos mostra, por exemplo, que: os animais carnívoros e mesmo os omnívoros têm garras e o ser humano não; ao contrário do ser humano e dos herbívoros, os carnívoros não têm poros cutâneos; os carnívoros possuem dentes caninos frontais pontiagudos e o ser humano não; os carnívoros não têm molares nem produzem ptialina, a enzima necessária à pré-digestão dos cereais, ao contrário do ser humano que deles necessita para mastigar e digerir os cereais e outros alimentos.
Uma alimentação natural baseia-se estritamente na ingestão de produtos de origem vegetal (cereais, feijões, legumes, frutos e sementes).
O principal objectivo de uma alimentação natural é manter-nos em equilíbrio saudável e em sintonia com toda a Natureza, da qual somos parte integrante. Ao longo dos séculos, e sobretudo após a Revolução Industrial, o homem foi-se distanciando dos alimentos naturais e sazonais, começando a consumir cada vez mais alimentos processados, congelados e de todas as partes do mundo. O natural é consumir aquilo que é de cada época e que existe num raio de 50 km do local onde vivemos.

Somos aquilo que comemos: Os alimentos que ingerimos, após digeridos no intestino, passam para o sangue que irriga todos os órgãos do nosso corpo, incluindo o cérebro. A qualidade do sangue determina a boa ou má condição de saúde de todos os nossos órgãos vitais e igualmente a qualidade dos nossos pensamentos e emoções. Há, por assim dizer, uma simbiose total e perfeita que nos permite afirmar que o "acto de comer é o acto mais íntimo da nossa vida": o alimento transforma-se em nós e nós no alimento.

Benefícios: A alimentação natural só nos traz benefícios, sendo o principal contribuir para uma condição de saúde mais equilibrada; ao eliminarmos da nossa alimentação produtos demasiado processados e gorduras saturadas (carnes, lacticínios, fritos), bem como o álcool, tabaco, café, chocolate (*) e açúcar, estamos a contribuir para uma condição sanguínea menos ácida e, portanto, mais benéfica a todo o nosso organismo.

Uma refeição equilibrada: para uma pessoa saudável, uma refeição equilibrada deve ser composta de 30% de cereal integral, 30% de vegetais ligeiramente cozinhados, 20% de alimento proteíco e cerca de 10% de vegetais crus (incluindo os germinados). É de salientar que nunca se devem misturar proteínas! Assim, se numa refeição já se encontra presente uma leguminosa (feijão, ou lentilhas, ou grão, etc) não é aconselhável misturar tofu, tempeh ou outros alimentos proteícos.
O tão famoso "cliché", mas não menos verdadeiro de que "cada caso é um caso", indica-nos que aquilo que é bom para uns pode não ser para outros; aquilo que é bom e saudável comer numa época do ano, não o é noutra (por exemplo, não se devem comer castanhas em Agosto, nem morangos em Dezembro!). Sendo assim, e dependendo da condição de cada pessoa em diferentes momentos, é aconselhável consultar um técnico com formação e experiência em alimentação natural (Naturopatia, Nutrição Ayurvédica, Medicina Tradicional Chinesa, Macrobiótica) no caso de haver dúvidas em relação ao que é mais certo para cada condição e, sobretudo, no caso de alguma patologia aguda ou crónica.

A evitar: Alimentos de origem animal, sobretudo todo o tipo de carnes e lacticínios. Estes alimentos são excessivamente gordos e deixam no organismo um tipo de gordura muito difícil de eliminar, causando posteriormente problemas graves de saúde. Por exemplo, a mistura da gordura de lacticínios com açúcar, mesmo que seja de fruta, cria um tipo de gordura interna muito difícil de eliminar. Obviamente, todas as substâncias tóxicas, tais como: álcool, tabaco, açúcar, café, chocolate (*), alimentos fritos (à excepção da Tempura (**), mas que deve ser consumida raramente), produtos enlatados e/ou congelados e produtos retardados (os alimentos devem ser consumidos logo a seguir a serem confeccionados, não devem ser reaquecidos e muito menos congelados).

Como adoptar uma alimentação natural: Tal como acima referimos, cada caso é um caso e por isso, cada pessoa deve, antes de mais, seguir a sua intuição, fazer as suas próprias experiências, descobrir qual é a melhor fórmula para si, e obviamente aconselhar-se sempre com um técnico devidamente credenciado que o possa orientar nessas escolhas, de acordo com a sua Constituição e Condição do momento. O que é certo para um, pode não ser para outro. Por isso, há que ter sempre muito bom senso. No geral, e como primeiro passo, qualquer pessoa saudável que queira mudar a sua alimentação deve deixar de comer carne e produtos lácteos e depois, progressivamente, ir fazendo pequenos ajustes. E é preciso salientar que não é necessário substituir estes produtos (carne e lacticínios) por outros. É preciso é deixar de consumi-los e aumentar as quantidades de alimentos de origem vegetal (cereais integrais, legumes, leguminosas, sementes, frutos).
Hoje em dia, há um exagerado consumo de soja, por exemplo, que não é nada saudável. Basta ver que no Oriente ninguém consome soja como a maioria das pessoas aqui no Ocidente. No Oriente consome-se a soja na forma de derivados/fermentados (shoyou, tofu, tempeh, miso), mas mesmo estes com muita parcimónia.

Se as pessoas deixarem de consumir carne e lacticínios já é mesmo um grande passo! Não só beneficiam a saúde, como beneficiam o Ambiente. E a alimentação fica muito mais económica!

Flexibilidade e Gratidão: Para finalizar, gostaria de salientar que seja qual for o regime alimentar escolhido por uma pessoa, ele nunca será perfeito, exactamente pelas razões apontadas; somos seres complexos, a nossa alimentação deve adaptar-se constantemente à nossa Condição, respeitando sempre a Constituição e, importantíssimo, de acordo com o clima em que nos encontramos!
Muitas pessoas, seja qual for o regime alimentar praticado, adoptam atitudes dogmáticas e inflexíveis, enformadas num padrão que pode ser bom e desejável mas que infalivelmente não poderá preencher todas as necessidades de todos os momentos. Para além disso, a perfeição, tal como a pureza, são coisas que não existem na Natureza; são apenas conceitos elaborados pela nossa mente dualista que, enquanto separada de tudo quanto existe, anseia por se unificar ao Todo fixando-se apenas num aspecto escolhido pela nossa personalidade (seja ele um ideal alimentar, religioso, político ou outro...). Todas as escolhas radicais e inflexíveis são sinónimo de doença, porquanto a Vida (Natureza) é diversificada, mutável, dinâmica, incontrolável e muito mais sábia do que as nossas limitadas escolhas! Por isso, para além de (boas ou não) escolhas e (bons ou não) conselhos que um técnico nos possa dar, é importante ouvir e sentir aquilo que o corpo nos transmite. Porque isso sim, é natural, é a linguagem da nossa própria natureza a falar connosco. E mais do que regras, tabelas e conceitos, mais forte que tudo isso é o Amor e a Alegria que devemos colocar em cada acto da nossa vida, sobretudo na confecção dos alimentos que vamos ingerir! Cozinhar com Amor, ao som de música, cantar e rir, isso dá mais saúde que o seguimento cego e obtuso de uma forma fechada, rígida e ansiosa de um conceito, seja ele qual for! E, de preferência, não coma em frente à televisão! Desligue-a! E seja grato por tudo aquilo que tem para comer em cada dia da sua vida!

(*) De acordo com os ensinamentos tradicionais da Ayurveda (Antiga Medicina Indiana) e da MTC (Medicina Tradicional Chinesa), o chocolate é considerado um alimento perigoso e tóxico a não ser que seja ingerido em pequenas quantidades num clima excessivamente frio! À parte isso, o seu consumo regular e exagerado é prejudicial ao trato intestinal e energéticamente desequilibrante.
(**) Tempura é um tipo de fritura muito rápida e ligeira feita com óleo de boa qualidade e novo: envolvem-se legumes cortados em fatias num polme muito leve feito com farinha integral e água, colocam-se no óleo quente e retiram-se de imediato; os legumes ficam praticamente crus e estaladiços!

Paula Soveral
Presidente do Conselho Técnico da Sociedade Portuguesa de Naturalogia
(publicado no Boletim Vida Sã, em Novembro 2008)