domingo, 12 de março de 2017

num dia ventoso



Texto de 1980
GRADIVA1º ed. 2004

lemos um livro do General PEDRO CARDOSO (1922-2002) que tinha o cognome de «Pai dos Serviços Secretos Nacionais». Ele faleceu em Lisboa, com 79 anos, foi um dos militares do antigo regime que melhor se adaptaram à democracia. Homem de confiança das chefias militares do Estado Novo, que em 1957 sancionaram a sua escolha para a Comissão de Segurança da NATO, em representação do país, serviu com idêntica lealdade a democracia, numa ascensão ponderada que foi de Salazar a Guterres, passando por Marcelo Caetano, Sá Carneiro, Mário Soares e Cavaco Silva. Apesar de afastado da ribalta há já alguns meses, pela doença que o consumia, era ainda à data da sua morte, em termos formais, conselheiro de segurança de Durão Barroso.
Foi ele quem introduziu em Portugal o pensamento de Sun-Tzu, tendo sido o seu primeiro tradutor; toda a documentação original de que dispunha entregou-a à Biblioteca do Instituto de Altos Estudos Militares. mais aqui:link

texto escolhido do livro:


"A ser americano, e a ter nascido uns séculos depois de Ï500, Pêro da Covilhã seria há muito um herói global. Nasceu numa família da classe média da Covilhã. Formado nas artes da esgrima e do combate. A sua aventura começou aí.
Em 1474, é já escudeiro do rei português D. Afonso V, que lhe aprecia o talento de cavaleiro e a queda para as línguas, entre elas o árabe. É ao serviço do rei que trava as primeiras guerras com Castela, intervindo na batalha de Toro.
Mas é com D. João II, em 1477, que Pêro tem oportunidade para aplicar todos os seus talentos. O «Príncipe Perfeito» confia no beirão como em ninguém, e promove-o a seu braço direito para os sensíveis jogos de sombra que é obrigado a executar, que, num curto espaço de tempo, irão da sobrevivência a um plano de domínio do mundo. É o escudeiro que reporta sobre os nobres amotinados contra o seu rei, e fornece a este último as informações fundamentais para a desmontagem da conspiração. A operação termina em sangue. D. João II executa o duque de Bragança, e, um ano depois, trespassa com o seu punhal o duque de Viseu. Pêro está ao seu lado. Assegurada a segurança interna, o rei ganha espaço para o seu magno projecto, a expansão a Oriente, terra das especiarias, e, acima de tudo, do lucro.
A epopeia marítima tem, afinal, muito mais de estratégia do que de descoberta. D. João II sabe que necessita de um exaustivo, longo e demorado reconhecimento, para adivinhar perigos, encontrar rotas, alcançar aliados, e ser eficaz no envio dos meios marítimos.
Para a execução do seu projecto, precisa de homens que saibam dominar o medo, que sejam capazes de percorrer território inimigo, e que tenham capacidades para descobrir e guardar as notícias que interessam. Homens como Pêro da Covilhã, que não abundam na Corte.
Primeiro, envia-o para firmar acordos com os soberanos muçulmanos de Fez e outras terras do Magrebe, que são conseguidos.
Em 1487, envia o escudeiro, juntamente com Afonso de Paiva, ao Egipto, Etiópia e Índia. Os dois homens separam-se em Adem, no que é hoje a Arábia.

Em Novembro de 1488, saberá dias depois, através de um missionário, chega ao reino indiano de Calecute. 
Descobre que muitas das informações dadas como certas em Lisboa eram apenas mitos directamente proporcionais à distância que separa os territórios indianos da sua capital. É assim que se inteira das paragens estranhas onde nascem as especiarias, e das verdadeiras rotas seguidas para as transportar.
Em 1491, Pêro volta do oriente e encontra o seu contacto no Cairo, o ponto de encontro combinado anos antes em Lisboa, pêlos estrategas do rei. E, provando que um monarca ambicioso não admite falhas, manejando os seus peões com precisão matemática, eis que o seu contacto aparece escassas semanas depois, no ponto combinado. O rabino de Beja, o homem enviado pelo rei, transporta consigo ferramentas preciosas: papel e tinta.Passa a noite toda a escrever as suas informações. De manhã, o rabino esconde cuidadosamente o relatório no corpo, e, sem grande emoção, parte para Lisboa. O cavaleiro prepara-se para a sua nova missão: demandar o reino de Preste João, na Etiópia.
Nunca deixará estas terras altas africanas. O soberano de Preste toma-o como conselheiro político, e impede a sua partida. Vinte e poucos anos depois, já com o império marítimo português em desenvolvimento fulminante, o Padre Francisco Alvares atinge a Etiópia, e recolhe as impressões do exilado. Pêro da Covilhã morre em 1530, na Etiópia, sem nunca ter voltado a Lisboa, sem nunca ter reencontrado a mulher, sem nunca ter visto o rosto do seu filho."


 

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