segunda-feira, 3 de abril de 2017

1869 _livro de viagem com humor

Editor: Tinta da China e apoio da Fundação Luso-Americana
contexto histórico. "Em Portugal, reina D. Luís e o período é de reconstrução, após a guerra civil. Em Espanha, vivia-se um período de lutas entre Carlistas e Cristinos. Em França, Napoleão III, após um período de grande autoritarismo, cedeu à monarquia parlamentar. Mark Twain refere-se a este monarca como sendo um génio da energia, persistência e empreendimento. A luta entre o general Garibaldi e Victor Emmanuel agita a Itália, e nem mesmo quando os passageiros do Quaker City são recebidos pelo próprio general e as forças policiais os confundem com perigosos revolucionários, se mostram de algum modo assustados. Na Grécia, após um período de guerras dinásticas, verifica-se uma intervenção britânica na política interna do país.
Por outro lado, a forma como os monarcas europeus se comportam ou são venerados pelos seus súbditos é descrita por Mark Twain, num tom crítico mas, ao mesmo tempo, revelador de um certo encanto. É sublime o modo como narra a entrada de Napoleão III e de Abdul-Aziz na grande exposição de Paris, saudados pela multidão. Twain não deixa de destacar a figura de Napoleão III e de marcar a diferença entre este monarca e o sultão da Turquia, que apresenta como sendo o génio da ignorância, intolerância e indolência. Ao visitar Versailles, reconhece novamente o valor de Napoleão III como garante da paz e só o recrimina pelo mal causado a Maximiliano, rei do México. Mais tarde, estando o Quaker City ancorado perto de Yalta, na Rússia, os passageiros são informados de que serão recebidos pelo Imperador Alexandre II.
Na conclusão escrita um ano após o regresso aos Estados Unidos da América, Mark Twain, sentado na sua casa em São Francisco, recorda as vistas europeias por um grupo de americanos em busca do próprio passado com inocência e humildade. Uma inocência e humildade que o escritor não assume.
Mark Twain evocou um dos principais aspectos da tradição americana. O homem do novo mundo que se recusa a ser intimidado pelo que não comprende no velho continente. Este sentimento profundamente jeffersoniano é simbolizado na divisa do grande escudo dos Estados Unidos da América «Novus ordo seclorum»."link do artigo


Prefácio do livro: A viagem dos inocentes ou a nova rota dos peregrinos
Ficou famosa a frase com que William Faulkner coroou Samuel Clemens (1835-1910) — aliás Mark Twain, para a posteridade — em meados dos anos cinquenta do século XX.
Definiu-o como o «pai da literatura americana». (Não deixa de ser tentador imaginar de que modo o próprio Twain seria capaz de dinamitar o que há de pesado e de solene numa legenda destas, ele que construiu toda a sua obra à revelia de qualquer solenidade literária.)
Esse registo de paternidade começa, pode dizer-se, com A Viagem dos Inocentes. É certo que já tinha havido antes um conto — Jim Smiley and his Jumping Frog — cuja publicação em jornais de todo o país tornara o escritor conhecido.
A Viagem dos Inocentes foi o primeiro livro publicado por Mark Twain e aquele com que o escritor obteria o seu maior sucesso literário em vida. Só no primeiro ano de edição, em 1869, terão sido vendidos setenta mil exemplares da obra, números que nenhum editor de hoje desdenharia poder repetir.
Quando embarcou no USS Quaker City, a 8 de Junho de 1867, num sábado, Mark Twain ainda só tinha em mente, tanto quanto se sabe, um projecto de carácter jornalístico. As cartas que escreveu no decurso da viagem para o Daily Alta California, de São Francisco, viriam a ser o ponto de partida para a obra.
Embora sendo um livro de estreia, A Viagem dos Inocentes contém já tudo aquilo que viria a ser central na personalidade literária de Mark Twain, fazendo dele um autor decisivo: da linguagem exacta e sem ornamentos a um impiedoso sentido de humor.
O humor é, na verdade, o elemento primordial deste relato. Mark Twain não poupa nada, nem os próprios companheiros de viagem. O sarcasmo do escritor não se limita, contudo, a um relato de peripécias mais ou menos burlescas num navio carregado de «inocentes» americanos em excursão pelo Velho Mundo.
O olhar de Mark Twain nunca é indulgente. Não o é para os passageiros e é-o ainda menos para alguns dos lugares visitados. Em certas passagens, pode chegar a extremos de contundência para os quais, no nosso tempo, se inventou a expressão «politicamente incorrecto».
A primeira paragem do Quaker City dá-se em território português. O modo como Mark Twain descreve a passagem pelos Açores é quase cruel, no retrato que traça dos portugueses, na Ilha do Faial. Também por isso, este é um livro que há muito deveria ser conhecido do leitor português. Nunca ninguém perdeu nada aprendendo a rir-se de si próprio.
Não deixa de ser significativo que exactamente cem anos depois da morte do «pai da literatura americana» algumas das suas obras continuem inéditas em Portugal. A Viagem dos Inocentes é talvez o caso mais emblemático e este volume é, de algum modo, uma reparação tardia desse lamentável (mas infelizmente nada incomum) esquecimento.
Carlos Vaz Marques
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um exemplo: disse a propósito da Terra Santa: "devemos os mapas sagrados aos católicos pois se tal trabalho meritório  estivesse nas mãos dos protestantes, ainda hoje não saberíamos onde ficava Jerusalém, e o homem que conseguisse apontar para Nazaré seria considerado vidente.", cap. L
148 anos depois muita coisa mudou.