sexta-feira, 23 de junho de 2017

Bragança sefardita_A CIDADE E AS SERRAS



 https://www.dussaud-g.fr/rubriques/portom-travail.html

Em Portugal, escrevia Miguel Torga, em 1950, "há duas coisas grandes, pela força e pelo tamanho: Trás-os-Montes e o Alentejo. Trás-os-Montes é o ímpeto, a convulsão; o Alentejo, o fôlego, a extensão do alento".
Entre as duas há uma infinidade e afinidade de lugares e tradições, de pessoas e atmosferas, de cenas de trabalho e de afetos, de gestos e de rostos, de romarias e rituais, de incontáveis histórias ancestrais; universos "miraculosamente intactos" que, num tempo não muito longínquo, pareciam subsistir, segundo o poeta, à espera de uma objetiva que os perpetuasse antes que desaparecessem de vez na voragem do progresso.
Alguns sucumbiram já, mas não antes que Georges Dussaud respondesse ao desafio de Torga, que, como fotógrafo viajante e ao longo dos últimos 30 anos, vem fixando pela imagem a cartografia de um Portugal antigo e autêntico; um amplo quadro de referências que a singularidade da própria obra - entre o realismo e a poesia, o documental e o artístico - veio mostrar ao natural, sem retoques, e repleta de humanismo.
Na assunção de que a melhor parte da viagem é o caminho e não o destino, a presente exposição propõe, sala a sala, um olhar demorado sobre o território, conduzido pela objetiva atenta de Dussaud, que ora nos faz subir ao mundo perdido que pulsa no cimo das serras da Nogueira, Montesinho, Larouco, Barroso e Gerês, ora nos faz descer à angústia dos vales profundos do Douro e nos descansa o olhar na ampla orla marítima ou na imensidão da planície. 
De relance, visitamos ainda Lisboa, porque afinal, diz Torga, "a Pátria é tanto o lodo de Alfama, o poleiro de S. Bento e a miséria mental do Chiado, como a lisura de Trás-os-Montes e a ênfase do Alentejo". 
Jorge da Costa link
________________________________________________________________________________ GEORGES DUSSAUD - A CIDADE E AS SERRAS no Centro de Fotografia Georges Dussaud
DE 16 DE JUNHO A 31 DE DEZEMBRO DE 2017 link
O acaso que, em 1980, trouxe Georges Dussaud (1944, Brou, França) a Trás-os-Montes, converter-se-ia, pela importância do lugar, na obra e nos afetos, num cíclico retorno.
Dussaud conhece bem a região que, ao longo dos últimos 37 anos, tem vido a ser o principal corpo de trabalho da sua obra, feita de incontáveis peregrinações por lugares, tempos e contextos muito distintos, na tentativa de sobre ela construir, a partir da fotografia, uma "radiografia profunda".
Dussaud regressa em abril de 2016 e em fevereiro de 2017, a convite do Município de Bragança, com o propósito de realizar um novo trabalho fotográfico: uma narrativa sobre a contemporaneidade desta região, sobretudo no que ela mantém de original e identitário.
O comércio, os rituais e os ofícios, os trabalhos agrícolas e o pastoreio, a paisagem e a arquitetura, as artes e a cultura, mas sobretudo as gentes, são alguns dos temas aqui tratados, sublinhando, ao mesmo tempo, a concertação que ainda se mantém entre a preservação das tradições serranas e as transformações impostas pela modernidade citadina, ideal tão aclamado no romance queirosiano.
Neste, como em tantos trabalhos anteriores, as suas imagens apontam, por isso, para um terreno aberto a todo o tipo de incursões, derivam das contingências do tempo e das oportunidades do momento, são feitas de acasos e de instantes aparentemente banais, irrelevantes, quotidianos e são, ao mesmo tempo, uma declaração do seu encantamento, dos seus encontros diretos e fraternos com as pessoas e os seus modos de vida.
A apropriação do título do romance de Eça de Queirós para esta exposição harmoniza-se, assim, com a proposta de uma pausada e apaixonante viagem pela cidade e algumas aldeias do concelho de Bragança, através de um corpo fragmentário e familiar de imagens, que Dussaud nos veio mostrar sob um novo olhar.
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http://terrasdesefarad.com/pt/evento/ _a propósito deste tema as palavras de

Paulo Mendes Pinto_CIÊNCIA DAS RELIGIÕES




"Conseguir, após estes séculos, regressar à temática sefardita, numa das cidades mais emblemáticas para este tema, é imagem de uma imensa coragem e de uma ainda maior visão da autarquia de Bragança.
Hoje, praticamente não há judeus em Bragança. No início do século XX, durante a I República, ainda se organiza uma comunidade de cidadãos brigantinos que, em liberdade, regressa à fé dos seus antepassados que tinham de manter escondida entre as paredes da privacidade.
Mas, seja pelo que o estudo do ADN já nos mostrou, seja pela cultura, seja pelo cosmopolitismo que marca a cultura judaica sefardita, hoje somos todos Terra(s) de Sefarad. Somos todos essa herança ligada à inovação, ao crescimento, à luta pela cultura e pela qualidade que marcou as comunidades de portugueses judeus.
Vivemos tempos marcantes em que a Liberdade Religiosa nos permite, em consciência, olhar para o passado e ver como ele nos pode ajudar na cidadania do futuro. Não só o diálogo e o respeito deve ser cada vez mais a norma, como a diferença precisa de ser valorizada como um património e uma riqueza que é de todos; dos judeus, mas também dos cristãos, dos ateus, entre tantos outros que hoje, como pessoas de boa vontade, procuram as ferramentas para uma cidadania consciente."