quarta-feira, 7 de junho de 2017

livro sobre Grácia Nasi



09-2010

 nota do editor: Nasceu em 1510 em Portugal depois de a sua família ter sido perseguida e expulsa de Espanha.  Viúva aos 25 anos, herdeira de um império comercial e de uma incalculável riqueza cobiçada por todos, Grácia Nasi torna-se numa verdadeira mulher de negócios, assumindo o seu espírito pioneiro e empreendedor, traço marcante dos sefarditas judeus/cristãos novos. Grácia Nasi percorre o mapa da Europa, passando por cidades como Antuérpia e Veneza, até chegar ao Império Otomano, onde finalmente pode praticar a sua fé às claras, sem recear qualquer perseguição. É aí que se dedica a ajudar muitos a escapar à Inquisição, apoia o estudo e o ensino religiosos, bem como a edição de Bíblias e estende a mão aos mais necessitados.link





No séc. XVI várias mulheres ocuparam lugares de poder visível: Lucrécia Borgia, Catarina de Médicis, maria da escócia, isabel de Inglaterra e finalmente Gracia Mendes – Nasi.
O livro de Esther Mucznik (Lisboa, 1946) situa-se numa linha do tempo indestrutível, inquebrável, sobre Gracia Nasi, nascida em lisboa como Beatriz de Luna no seio de uma família de cristãos novos, Beatriz Mendes por casamento com Francisco Mendes, conhecida nos últimos anos de vida pelo nome judeu de Gracia Mendes – Nasi ou a “A Senhora”.
Ela foi sem dúvida uma protectora da religião judia, uma mãe – tara para o seu povo. Um livro da época a ela dedicado diz: “à ilustríssima Senhora Dona Gracia Nasi, coração da nação portuguesa…para vos testemunhar a minha gratidão pelos numerosos favores que recebi da vossa mão.” A narrativa de E. M. foca-se no sofrimento nómada dos cristãos novos provocada pela ignorância e ganância das elites dos países onde viviam. Uma história judia de dois mil anos, um vento que só parece ter abrandado no séc. 21, mas ao qual é preciso estar atento.
No séc. XVI Grácia Mendes Nasi (1510 em Lisboa - 1569, Constantinopla) nasce e foge de Lisboa, vivendo os últimos anos de vida na Turquia onde pode praticar e proteger a religião judaica.  No séc. XX Calouste Gulbenkian (23 de Março de 1869, Constantinopla - 20 de Julho de 1955, Lisboa) vive os últimos anos de vida em terras lusas, grato pelo refúgio e liberdade religiosa oferecida por Portugal.

Acrescento que existiram cristãos novos em Portugal (trás os montes) de que nunca se ouviu falar: “Manuel Cortiços foi um dos grandes banqueiros do seu tempo, possivelmente o maior em toda a península ibérica à data da sua morte em 1650. Mas o seu nome não consta em nenhum dicionário de ilustres Trasmontanos” link

A luta pela liberdade religiosa do povo judeu aproxima-os do povo tibetano, exilados da sua pátria mas sabendo transformar a adversidade em vitória. Ao deixarem a sua terra natal, o budismo tibetano espalhou-se pelo mundo ocidental e trouxe consolo a muitos, incluindo judeus, cristãos e ateus no seu seio.




Conta Fabien Ouaki um judeu francês: “Tive a sorte de ter como preceptor religioso um dos primos de meu pai, Joseph Sitruk, um jovem rabi colocado em Paris e que é hoje [1995] o Grande Rabi de França. Este homem possui um verdadeiro dom de orador — o que veio a confirmar-se posteriormente —, e atrevo-me a dizer, de transmissor. Respondendo, com uma paciência infinita, a todas as minhas perguntas de criança, ele incutiu-me a fé. Não uma crença cega, mas uma verdadeira fé em Deus. Costumava contar que, num curso, um jovem aluno lhe perguntou: «Onde está Deus?». Antes que pudesse responder, um outro aluno saltou da cadeira em que estava sentado e disse: «Deus está em todo o lado, Ele está no ar que respiramos, na água, na terra, no céu, Ele está em todas as coisas.» Ainda hoje considero esta resposta mais bela que todas as imagens de um Deus criador de longas barbas brancas, sempre pronto a castigar ou a recompensar. Para mim essa resposta queria dizer que Deus se encontra também em cada um de nós. Ficou-me deste período o gosto pelos contos magníficos querepresentavam para mim alguns episódios do Antigo Testamento —menos áridos que as difíceis lições de hebreu — e a lembrança de umadiscussão sobre a kashrut (lei judaica sobre a alimentação). Eu tinha perguntado ao Rabi Sitruk porque é que a carne de coelho não era kasher, ou seja, porque é que era impura e não se podia comer. Para mim as outras interdições tinham uma certa lógica, tal como o facto de não se poder comer numa mesma refeição o sangue e os outros produtos do mesmo animal, por exemplo a sua carne e o seu leite, mas o caso do coelho não fazia sentido. «Deus, respondeu-me ele, fez isso de propósito para consolidar a fé do homem, ela não se possa basear apenas na razão.»Esse Deus astuto pareceu-me ainda mais simpático: para confrontar os homens com tais estratagemas devia conhecê-los muito bem e, se os conhecia assim tão bem então devia, sem dúvida, amá-los igualmente. Infelizmente, Joseph Sitruk foi transferido para Estrasburgo e o rabi que o substituiu era menos sensível às nossas perguntas de crianças.
Posso agradecer-lhe o facto de me ter preparado muito bem para a minha
bar-mitzva mas, no que toca às suas respostas, a pouco e pouco acabaram por me afastar da religião. Um dia perguntei-lhe: «E qual é o papel de Jesus em tudo isto?» Lembro-me de que me respondeu com irritação:«Não estamos aqui para falar de Jesus...»
Além disso os meus pais não eram praticantes muito assíduos, e
nessa época — tinha então 13 anos, eu pensava que havia coisas mais
interessantes para fazer. Desinteressei-me de qualquer prática religiosa,
mas não de Deus e ainda menos da fé, que ainda hoje continua presente
em mim. Munido desta fé íntima, que dificilmente podia partilhar com os meus companheiros continuei, de forma confusa, ao longo do período difícil
que é a adolescência, a procurar um caminho, o meu caminho…..(…) O proselitismo está de tal modo ausente da tradição budista que levei vários meses a identificar a filosofia dos meus novos patrões. Numa noite de Outono, um deles disse-me que o seu mestre, Kalou Rinpoche, estava em Paris onde daria um ensinamento.
Kalou Rinpoche era idoso e muito magro. Desse ser, aparentemente
frágil, emanava um amor impressionante. Era caloroso mas distante,
como se pensasse: «Amo-vos, mas não preciso de nada, obrigado...»
como se desejasse que não se apegassem a ele. Nunca pedia nada e só
ensinava, respondendo assim às solicitações de um número já
impressionante de europeus de todas as idades que se sentiam atraídos
pela sabedoria tibetana. Nessa noite, Rinpoche dava a iniciação de
Chenrezi, o bodisatva da compaixão, para mostrar às pessoas presentes
o caminho do altruísmo. Aliás os Dalai Lamas são reconhecidos como a
emanação humana desse bodisatva, especialmente amado no Tibete e na
Ásia. Exemplificando, através de imagens, este conceito de incarnação,
eu diria que se Chenrezi fosse uma vela, os sucessivos Dalai Lamas
seriam a chama. Retirado do livro “A vida é nossa” conversas com O Dalai Lama.