segunda-feira, 24 de julho de 2017

“1001 Noites”



 
O Expresso lança a coleção “1001 Noites”, uma compilação das famosas histórias populares árabes, persas e indianas, dividida em 7 volumes, e enriquecidas com prefaciadores e ilustradores convidados. A não perder de 22 de julho a 2 de setembro de 2017, grátis.



 texto de Luís M. Faria : "Na presente edição, distribuída gratuitamente, os leitores terão acesso a uma escolha de contos onde se encontram aqueles tidos como incontornáveis — Aladino, Ali Babá ou Sindbad — mas também muitos outros capazes de erguer um universo de encantamentos vários ainda que revelador de um pragmatismo provavelmente ancorado nas tradições morais da Índia. Xerazade, a grande contadora de histórias, poderia ser uma heroína dos nossos dias.
Tapetes voadores, palavras mágicas que abrem cavernas, génios a sair de lâmpadas, maçãs milagrosas... Este é o género de coisas que associamos a “As Mil e Uma Noites”, uma obra literária de fama universal que se tornou símbolo de prodígios e encantamentos. Na sua génese ainda há bastante de misterioso, mas nada de mágico. Trata-se de uma coleção de histórias e contos tradicionais do sudoeste asiático e do Médio Oriente que foram sendo transcritos e compilados em árabe a partir do século VIII, durante a chamada Idade de Ouro Islâmica. A primeira edição ocidental data de 1704. Intitulada “Les Mille et Une Nuits, contes arabes traduits en français”, deve-se ao orientalista francês Antoine Galland, tendo saído em 12 volumes até 1717. Depressa começou a ser lida e imitada na Europa, bem como noutros lugares. Entre os escritores que inspirou está Voltaire, cujos ‘contos filosóficos’ são igualmente fantasiosos.
“As Mil e Uma Noites” (em alternativa, “Mil Noites e Uma”, ou “Mil Noites e Uma Noite”) continuaram a fazer sentir a sua presença no século XIX. Diderot, Dickens, Poe, Goethe, Fielding, Flaubert e Tolstoi são apenas alguns dos gigantes onde ela se nota de forma direta ou indireta. Se no Iluminismo as fábulas serviam sobretudo para expor ideias, no Romantismo entraram diretamente na sensibilidade dos poetas. A obra foi traduzida do francês para outras línguas — alemão, russo, italiano — e em 1885 outra edição de referência, feita pelo explorador e autor britânico Richard Burton, repôs material erótico que tinha sido cortado por Galland.
Hoje “As Mil e Uma Noites” continuam a ser alvo de adaptações e a servir de matéria-prima a artistas, na literatura como noutras artes. “Aladino”, um filme de animação da Disney, expandiu a novas gerações, à escala global, um dos contos mais emblemáticos.
O propósito, geralmente, é instrutivo. Por exemplo, numa história sobre um génio que vai matar o pescador que o libertou de uma garrafa, surge outra sobre um rei que manda executar o homem que o curou de uma doença, antes de ser ele próprio morto com veneno que o seu benfeitor lhe fez chegar ardilosamente... pouco antes de ser executado. A lição tem que ver com os perigos da ingratidão. Mas só pode ser enunciada pelo pescador quando ele já conseguiu, por meio de astúcia, fazer o génio voltar a entrar no pote, onde fica novamente preso. Fantasia, sim, mas assistida pelo pragmatismo.
De onde quer que venham, as histórias cumprem a sua missão salvadora. Ao cabo de um milhar de noites, o rei decide poupar a sua esposa, que não só é bela como mostrou ter uma memória absolutamente incrível. Poupar Xerazade significa poupar todas as outras mulheres que graças a ela deixam de morrer. Além de ter dado três filhos ao rei, a filha do vizir contou-lhe histórias que o transformaram. E o mundo ficou melhor." link