![]() |
| 01-2019 Como a paisagem e o ambiente alteram o nosso comportamento e as nossas decisões. Conheça a psicogeografia, a influência dos lugares naquilo que somos.O meio envolvente tem uma influência decisiva no ser humano. Afeta os nossos pensamentos, as nossas emoções e a nossa resposta física, quer nos sintamos deslumbrados pelo Grand Canyon ou pela Basílica de São Pedro, em pânico numa sala lotada, ou tentados nos casinos e nos centros comerciais. Em A Alma dos Lugares, o psicólogo e investigador na área da neurociência Colin Ellard explica como as nossas casas, os nossos locais de trabalho, as cidades que habitamos e, claro, a natureza nos vêm influenciando ao longo da história, e dá conta de como o cérebro e o corpo respondem de forma diferente aos espaços reais e virtuais. Neste livro fascinante, publicado em vários países, este especialista na dinâmica entre a psicologia, a arquitetura e a geografia - a que chama psicogeografia - analisa também a influência que as tecnologias têm no meio envolvente, questionando o leitor sobre o tipo de mundo que estamos a criar. entrevista na wook
COLIN ELLARD: «O LUGAR ONDE ESTAMOS EXERCE UM PROFUNDO
IMPACTO NAQUILO QUE SOMOS» PARTILHAR:
Colin Ellard estuda o efeito psicológico do design urbano e do stresse
próprio das grandes cidades no ser humano. É um autor de referência nesta área
e acaba de publicar em Portugal o livro 'A Alma dos Lugares', no qual visita as
profundezas da nossa mente para nos explicar porque é que nos sentimos abismados
no Grand Canyon ou na Basílica de São Pedro ou, por exemplo, porque é que
preferimos a natureza a salas lotadas.
«A Alma dos Lugares» (Places of the Heart) é o seu primeiro
livro editado em Portugal. Explique-nos o que é a Psicogeografia.
A Psicogeografia é o
estudo da relação entre os “cenários” que compõem as nossas vidas – interiores,
edifícios, ruas – e a forma como nos sentimos. Estejamos conscientes disso ou
não no próprio momento, o local onde estamos exerce um impacto profundo naquilo
que somos. Colin Ellard Collin Ellard é professor de psicologia, especializado
em neurociência cognitiva
Há quanto tempo estuda sobre o tema e por que motivo lhe
desperta tanto interesse?
De uma forma ou outra, tenho estudado psicogeografia há
cerca de 30 anos, contudo, grande parte dos meus primeiros estudos baseavam-se
em questões muito simples como, por exemplo, como todos os animais, incluindo
os seres humanos, ocupam e usam o espaço. Foi apenas nos últimos 10 anos que me
decidi focar na influência que locais construídos por seres humanos podem ter
em termos comportamentais. Isso é algo que me interessa bastante, porque
passamos grande parte do nosso tempo em locais desenhados e construídos por
outras pessoas, sem que muitas vezes ter noção do “poder” desse espaço. Assim
que abrimos os olhos para o impacto do design nas nossas vidas e nas nossas
mentes, é extremamente difícil voltar a sentir o que se sentia anteriormente
quanto ao mundo.
«O NOSSO HUMOR PODE MUDAR COM OS MAIS PEQUENOS DETALHES
SUPERFICIAIS»
São os lugares que nos mudam ou somos nós que mudamos os
lugares?
Ambos! Alguns animais são capazes de construir coisas: os
pássaros e as térmitas fazem ninhos, outros escavam buracos, mas os seres
humanos levaram as coisas ao extremo. Nós construímos coisas para tenham
funções, significado, beleza, como forma de dissidência, de exercer poder sobre
outrem e por inúmeras outras razões. Contudo, as construções também nos “fazem
a nós”. Em termos de design podem afetar onde vamos e o nosso humor pode até
mudar devido aos mais pequenos detalhes superficiais.
Como é que se explica a nossa preferência por determinados
espaços em detrimento de outros, por exemplo, a natureza?
Em parte, as nossas preferências têm por base influências
ancestrais e herdadas que se relacionam com a necessidade de sobrevivência.
Muitas pessoas, por exemplo, preferem viver em locais onde possam apreciar uma
boa paisagem, enquanto outras preferem estar mais isoladas. Se essa lógica for
aplicada em termos de onde as pessoas se preferem sentar num restaurante ou
praça, muitos ocupam as extremidades. Estas escolhas devem-se muito
provavelmente a impulsos antigos ligados à escolha de habitats seguros. Os
ambientes modernos não são tão ameaçadores como outrora, mas essas influências
ainda moldam o nosso comportamento.
Neste livro, há um capítulo dedicado ao «Futuro da Casa»,
onde nos diz que, em breve poderemos ter casas com design sensível, isto é, uma
arquitetura capaz de reagir e interagir com os seus utilizadores.
Isto não é assustador?
Sim, e em mais do que uma forma. Tentei transmitir essa
ambivalência no meu livro. Não é difícil imaginar razões pelas quais alguma
interatividade nos nossos lares pode ser algo bom. Existem pessoas que
gostariam de ter “termóstatos” que monitorizassem o nosso comportamento e
ajustassem o ambiente de forma adequada. Por outro lado, a ideia de que a nossa
casa “nos ama” e tenta tomar conta de nós pode ser algo “asfixiante” e invasivo.
Para que fique claro, não estou necessariamente a promover a ideia de que este
tipo de arquitetura deva ser a ambição de todos, mas é algo que vejo a
acontecer eventualmente e devemos pensar seriamente nisso. Um pequeno exemplo
disto, apesar de não ser sobre arquitetura, foi o aparecimento de dispositivos
inteligentes dentro de casa das pessoas (como a Alexa). Aí, já temos de pensar
em termos de privacidade, controlo e vigilância.
Deixar que a tecnologia invada o nosso espaço íntimo e
condicione a nossa vida a ponto de não termos sequer que pensar é o futuro que
queremos? Que riscos é que este cenário comporta?
É certamente possível. Um exemplo que me vem sempre à mente
é o caso de uma familiar minha, já falecida, que vivia numa quinta num local
remoto do Canadá. Ele aquecia a sua casa com ajuda de um grande forno de
madeira que tinha na cozinha. Isso significava que teria de haver sempre um
stock de lenha por perto, que o forno fosse atiçado quando ia dormir e que
adaptasse os seus hábitos à previsão meteorológica. Todas estas tarefas, por
mais chatas que possam parecer, ligavam-na ao mundo. Ela tinha de estar em
contacto com o seu filho (ou comigo quando a visitava) de forma a que houvesse
sempre lenha e com o mundo para saber que tempo faria nos dias seguintes. A
geração tecnológica atual e o que o futuro trará, pode enfrentar o mesmo tipo
de problemas. Ser protegido do que é real pode ser confortável por vezes, mas
creio que também haverão perdas.
«Temos a capacidade de nos começarmos a apaixonar por um
edifício ou por um lugar tal como começamos a apaixonar-nos por uma pessoa»,
admite no seu livro. Fiquei impressionada com esta afirmação.
Amor! Gostaria de ter algo sensato para dizer sobre uma
palavra tão difícil! Acho mesmo que em alguns aspetos podemos ter um grande
afeto por um local. Eu próprio tenho locais favoritos e sinto a sua falta
quando me encontro longe deles. Tenho a certeza que quando me encontro lá,
estou a produzir os mesmos tipos de alterações neuroquímicas que acontecem
quando estou ao lado da mulher que amo. Existem, claro, algumas diferenças.
Algumas pessoas afirmam que têm todo o tipo de sentimentos por edifícios,
chegando mesmo a ter cerimónias de casamento com estruturas físicas. Eu não
diria que isto é algo “normal” e sinceramente não sei mesmo o que pensar disso
para lá de que a diferença é uma das coisas que nos torna tão belos. Somos
todos diferentes.
Que momentos na sua vida lhe dão conforto?
Eu medito, por isso, penso nos meus pequenos momentos de
mindfulness que podem acontecer em qualquer lugar, a qualquer hora do dia.
Claro que também me ocorrem alguns locais. Adoro estar na natureza e tenho
alguns lugares secretos por onde gosto de caminhar.
Se tivesse um superpoder, qual seria?
A pergunta mais difícil ficou para o fim! Acho que gostaria
de poder definir a duração da minha própria vida. Tenho quase a certeza que ser
imortal seria chato depois dos primeiros milénios, por isso gostaria de ter a
oportunidade de viver até quando quisesse. Há tanto para experimentar que nem
sei como pode caber tudo dentro do tempo que nos é concedido. Talvez 500 anos
fossem suficientes.
|
quinta-feira, 31 de janeiro de 2019
livro: A Alma dos Lugares de Colin Ellard
Subscrever:
Enviar comentários (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.